Por DEMÉTRIO MAGNOLI, no O GLOBO.com
Quem é o culpado? Sidônio Palmeira, Janja, Alexandre de Moraes, o “imperialismo ianque”, a “imprensa entreguista”, o mordomo? Todas essas hipóteses circulam na campanha de Lula e na base militante petista. Contudo, no fundo, a teoria mais permanente é outra: a culpa seria do povo.
Há muito, quando o PT perdeu uma eleição em São Paulo, a filósofa Marilena Chauí acusou a “classe média fascista”. Era estranho, pois o PT daquele tempo triunfara várias vezes nas grandes cidades do Sudeste, inclusive com o voto majoritário dos bairros de classe média. Afinal, essa camada social tornava-se fascista apenas quando o PT perdia?
Outros tempos, novos culpados. Desde 2018, nos meios de esquerda, firmou-se uma obsessão sobre o “pobre de direita”. Os militantes tendem a imaginar que sua régua — a ideologia — é a de todos. Não entendem que a decisão de voto move-se circunstancialmente. Eleitores de Obama votam, depois, em Trump, e os mesmos pobres que sufragaram Lula podem votar em Bolsonaro.
A difusão da política identitária entre os “progressistas” degradou ainda mais os diagnósticos. No lugar de grupos (imaginários) mais ou menos demarcados, a culpa estendeu-se à sociedade inteira — ou, ao menos, à maioria dela.
Numa entrevista anterior ao primeiro turno, dedicada a divulgar o livro “O ódio como política”, que organizou, a socióloga Esther Solano sugeriu a seguinte explicação sobre o eleitorado de Bolsonaro:
— Estamos num país que tem uma sociedade de muito racista e muito machista. O Brasil é o país que mais mata pessoas transgênero no mundo, tem uma alta taxa de feminicídio. Então, é um país que está construído sobre uma base de ódio contra o diferente.
Solano expressa, palavra por palavra, um diagnóstico que percorre significativa parcela da esquerda. Ela não disse que existem racismo, machismo, misoginia e transfobia, o que é óbvio. Mas, recitando a bíblia identitária, afirmou que essa é a essência da “sociedade brasileira”. Afinal, de acordo com Solano, o Brasil ergue-se “sobre uma base de ódio contra o diferente”. Se isso for verdade, desistam: Lula não tem chance. Um país esculpido nesse molde elegerá, inevitavelmente, a extrema direita. E, como não dá para mudar de povo, restaria aos “progressistas” mudar de país.
Supostamente radical, o raciocínio identitário é, na verdade, fatalista — e derrotista. Seu fulcro encontra-se na palavra que amam de paixão: estrutural. O racismo é “estrutural”, como a misoginia, a homofobia e a transfobia. Significa que estão incrustados no DNA da “sociedade”. Não havendo saídas, procura-se constranger a “sociedade” atribuindo-lhe características pecaminosas, a fim de cobrar “compensações”, na forma de cotas.
Funciona, mas ao reverso. O declínio eleitoral dos “progressistas” no Ocidente reflete, em larga medida, o fastio provocado por intermináveis discursos sobre a culpa proferidos do alto de uma pretensa superioridade moral.
O detalhe que escapa ao raciocínio identitário: desde 2003, os “progressistas” governaram o Brasil durante 75% do tempo. Como se explica que uma sociedade tão corrompida, violenta, odienta e odiosa tenha feito tal escolha eleitoral predominante?
Há mais. Inegavelmente, e segundo os próprios discursos de Lula, os governos “progressistas” que dominaram nossa História recente desempenharam papel significativo na edificação do Brasil atual. Seu legado é um país tão depravado?
As diversas justificativas ensaiadas para a derrota no primeiro turno, do mordomo marqueteiro ao país consumido pelo pecado, têm algo em comum: eximir o presidente e seu partido de qualquer responsabilidade. Lula, o PT e as políticas do governo nada têm a ver com o fracasso. A culpa é sempre dos outros — e, segundo a lógica identitária, do país impuro que os puros governam.
É uma repetição. No rastro do impeachment de Dilma Rousseff, inventou-se a lenda do “golpe das elites” para impedir a revisão crítica das políticas que conduziram à depressão econômica. Hoje, a imaginação “progressista” voa alto, com o mesmo objetivo. Quebrar espelho, eis o que se faz. Desse jeito, até um Flávio pode chegar ao Planalto.


