Eleição para ficar nos anais da democracia brasileira. Uma decisão desnecessária e inócua tomada monocraticamente por um ministro do STF, que foi advogado de Lula, assanhou a chapa perdedora e deu gasolina para o levante de suspeitas sobre a idoneidade do pleito. A consistência do processo eleitoral do Brasil ficou na berlinda e a isenção da mais alta corte definitivamente abalada, em face de outras decisões tomadas por ministros ligados a Lula, em suposto desfavor de Flávio Bolsonaro ao longo da campanha.
Após uma vitória acachapante da direita no primeiro turno, que elegeu uma ampla maioria no Congresso — com destaque para um Senado onde a esquerda foi devastada —, as urnas do segundo turno atropelaram todas as expectativas de vitória de Flávio Bolsonaro (22) e decretaram o fim das chances de alguém com esse sobrenome voltar à Presidência da República. Enquanto Flávio subiu no salto alto e começou a montar o ministério, Lula, Janones e seu exército digital colocaram a faca nos dentes e foram às ruas e avenidas das redes sociais em busca da virada. Bingo!
De uma forma inédita, Lula virou uma eleição perdida, e não faltam analistas para tentar explicar as razões que levaram milhões de brasileiros a mudarem seus votos de um lado para o outro e reduzirem as abstenções a patamares também inéditos. Os mais de quatro milhões de votos de Lula sobre Flávio, quando no primeiro turno Flávio teve algo como dois milhões de votos a mais que Lula, foi um episódio desconcertante, não para a direita, mas sim para o clã Bolsonaro.
Resta claro que o terreno do bolsonarismo ficou muito pequeno para caber o tamanho da obra que a direita brasileira construiu nessas eleições. O bolsonarismo sai nanico e grogue dessa eleição, e o surgimento de novos comandantes da direita vitoriosa será inexorável. O Capitão Jair Bolsonaro foi o grande derrotado, enquanto líderes como Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira, Sérgio Moro, André Fernandes e muitos da nova bancada da direita no Senado saíram gigantes dessa eleição. Teimou e apostou, impondo o filho “01”, e assistiu, preso em sua cela, seu plano ruir.
Quem será o novo capitão da direita que conduzirá o enorme capital político nas próximas eleições? Como a direita estará se reconfigurando a partir desta fatídica noite de domingo para superar a preferência do chefe do clã Bolsonaro por um de seus filhos ou, até mesmo, pela esposa, agora senadora pelo DF? E a pergunta que não quer calar: o que teria acontecido se o candidato tivesse sido Tarcísio? Pelo visto, Lula sobreviveu para ver o ocaso dos Bolsonaro, mas não para ver o declínio da direita, agora bombada na Câmara e no Senado.
As falas de Lula, após essa virada cinematográfica, apontam claramente para a preocupação de “alckminizar” seu último mandato e preparar seu sucessor. Ficou a impressão de que Lula revelou sua senha ao acenar aos seus eleitores com o seu vice, Geraldo Alckmin, depois desse enorme susto imposto pelas urnas.
Lula precisará conter o enorme desejo dos eleitos de paralisar seu novo mandato. Ele não terá trégua e precisará do seu vice para construir as pontes e os canais no Congresso. O pedido do atual presidente do Senado, formulado no bojo da apuração, para que Lula seja humilde sinaliza claramente uma preocupação com a governabilidade e com a contenção dos ânimos de impeachment que já existem.
O resumo dessa opereta toda é que faltou voto para Flávio, sobrou para Lula, e qualquer ilação de fraude nas urnas pode ampliar a marca registrada dos ultradireitistas que não se conformam em perder eleições para a esquerda. Neste caso, a pane seca foi quase em frente ao posto. Coisas de eleição e, vida que segue!


