O TRADE É BAIXINHO, NO TURISMO. PROBLEMÃO!

O TRADE É BAIXINHO, NO TURISMO. PROBLEMÃO!

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O mergulho do turismo cearense no oceano da mediocridade é bem mais profundo do que se pode imaginar. Assistir à própria ABIH/CE, a Associação dos Hotéis do Ceará, celebrar taxas de cerca de 95% de ocupação hoteleira em Fortaleza na última semana do ano é um verdadeiro desencanto. Ignorando que essa taxa é produto da demolição de hotéis na orla de Fortaleza, que somados alcançam quase mil quartos a menos, a entidade celebra seu próprio velório. Ou seja, a hotelaria comemora uma suposta taxa de ocupação originada no enorme declínio da oferta hoteleira e não no aumento da efetiva demanda turística. Faz festa pela redução do denominador e não pelo aumento do numerador. São kamikazes ou somente mais uma entidade “puxadinho” do governo do estado?


Quando as entidades do setor privado resolvem se politizar e abandonam suas funções basilares e as virtudes próprias do associativismo, cabe perguntar o que sobra do papel que motivou sua criação? No caso, essas federações e associações disso e daquilo e do chamado “trade”, termo que designa os elos das cadeias de negócios do setor privado. A resposta não deveria ser outra senão a de articular a melhoria do ambiente de negócios de uma maneira geral, promover o alinhamento das melhores práticas de gestão entre seus membros e fortalecer a viabilidade econômica das empresas afiliadas.

Outro papel central, no capítulo da melhoria do ambiente de negócios, é a emulação sadia e técnica com o setor público (governos), no sentido de estes não atrapalharem, onerando ou burocratizando os negócios, seja a produção, a comercialização ou a distribuição. Possuir entidades isentas, técnicas e focadas nesses objetivos é um ativo valioso do empresariado, o qual nunca estará explicitado em seus balanços. Ter, digamos, um trade guerreiro e capaz de manter a corda das reivindicações esticada é vital para o fortalecimento da categoria.

Emular com o governo é uma das tarefas mais complexas, que requer muita diplomacia para não queimar pontes, obstruir a pauta e romper o diálogo. Contudo, quando as lideranças dessas entidades abandonam suas agendas institucionais, próprias do setor privado, para perseguir metas pessoais de autopromoção visando disputar eleições ou ocupar cargos públicos, a coisa pode mudar de figura e descalibrar seriamente a ação dessas entidades. Se a entidade vira trampolim pessoal e seus gestores passam a amolecer suas agendas para agradar os donos dos partidos e governantes de plantão para obterem indicações dos donos dos votos, restará rompido o rótulo da institucionalidade e todos os associados serão prejudicados.

É importante sim que os setores tenham representantes no parlamento, para manejar interesses legítimos, mas se esse caminho trouxer frouxidão e tibieza por parte de seus dirigentes, não vale a pena diante da grandeza das pautas de luta das entidades. Neste caso, é melhor terceirizar a luta legislativa para quem já está lá. Não faltam parlamentares ansiosos para assumir essas pautas nas câmaras, nas assembleias e no senado. Os exemplos mais claros são as bancadas do agro, da indústria, da bola, dos evangélicos, do comércio, etc. Todas lutam por uma legislação que favoreça seus eleitores/segmentos, muitas vezes sem importar para suas consequências no orçamento público.

Todos sabem quanto custa uma eleição para estreantes, aqueles entrantes na estrutura partidária, que não conseguem acessar fundos partidários e eleitorais na mesma proporção dos veteranos. Se não for assim, tem-se que ser um milionário capaz de aportar 10 ou 15 milhões em uma campanha para ser minimamente competitivo, correndo ainda o risco de malograr e não retornar o investimento. Caso contrário, vai ter que disputar com quem já opera milhões anuais em emendas parlamentares, inclusive as PIX, que nem Deus sabe seus destinos. Muito difícil para um novato.

O papel de líderes empresariais é serem, antes de tudo, líderes. Serem a voz e a imagem dos setores que representam. Deles dependem a credibilidade, seriedade e legitimidade dos liderados. Quando o político percebe que esse “líder” quer entrar na dança das cadeiras, estará ele e sua entidade precificados a mercado, ou seja, mais um candidato a candidato nas próximas eleições. Sendo assim, nada de apoiar baixinhos das planícies que querem chegar ao Planalto.

O trade tem que ser uma instância firme, grande, nobre, meritocrática e não ceder a tentações fisiológicas de supostas lideranças de si mesmo, embaladas por vaidades pessoais. Se é para lançar um candidato do setor, que seja alguém com credibilidade, passado, conteúdo, firmeza, conhecimentos e habilidades que ultrapassem muito o lero-lero político. Sem isso, essas entidades se apequenam e se transformam em meras instâncias coadjuvantes na ciranda própria e privativa dos partidos políticos em ano de eleição.

Sendo assim, o Trade turístico não pode ser pequeno nem baixinho, mas sim grande e altão para ser visto, ouvido e respeitado.

Respostas de 2

  1. Perfeitas as suas considerações. Nossas entidades caíram todas nessa armadilha: viraram puxadinhos dos governos; não lutam, não pautam, não reivindicam mais nada e ainda estendem tapete vermelho para seus algozes. Vergonhoso!!!

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